Omaha Beach

O novato quase não acredita que está escrevendo este post. Isso porque visitar Omaha Beach foi uma dessas coincidências raras que a gente experimenta na vida, e cuja a história merece ser narrada aqui nos mínimos detalhes que esse post permitir.

Tudo começou há uns dois meses ainda no Brasil, quando, em conversa com seu nobre e antigo amigo Otávio Teobaldo (a ele nossa menção honrosa de hoje), o novato perguntou ao ilustre se este gostaria de ganhar algum souvenir especial da Europa e o salafrário, em um tom desafiante que lhe é de praxe, respondeu: “Cara, me traga um pouco de areia de Omaha Beach!”. Eu nem sabia direito onde Omaha Beach ficava na França, e pra dizer a verdade, em um primeiro momento demos risada dessa idéia, pois parecia (e de fato é) algo totalmente fora dos padrões de um brasileiro que visite a França. Todavia, quando já na Inglaterra, comentei essa história com o Stuart, pra minha surpresa ele disse: “podemos fazer isso, pois Omaha Beach fica a poucos quilômetros do local onde vamos ficar na Normandia”.

Bem, antes de qualquer narrativa, é importante dar uma explicação sobre Omaha Beach, algo que pode ser familiar aos fãs de Battlefield 1942 (esse sim era um jogo legal), mas nada intuitivo  para alguém que não conheça os detalhes da história. Omaha Beach é na verdade o nome da operação militar conduzida pelas forças americanas durante a invasão da Normandia em 6 de junho de 1944, na tentativa de libertar a França do domínio nazista. Esta operação, que na verdade foi apenas parte de uma grande investida militar conhecida na história como o Dia D, é muito bem ilustrada em filmes como “O Resgate do Soldado Rian”. Embora tenha tido sucesso em seus objetivos, foi um ato de estratégia absolutamente infeliz por parte dos americanos, uma vez que aproximadamente 80% do seu contingente literalmente morreu na praia. Mas, de qualquer forma, como vencedores, os americanos comemoram muito essa batalha e o Dia D é estabelecido como o marco para todos os países aliados da Segunda Guerra, e principalmente a França, que passou a chamar oficialmente esta praia de Omaha Beach desde então.

E o passeio em Omaha Beach é algo realmente legal. Desde as proximidades da praia até de fato chegarmos às suas ondas, é possível ver e fotografar elementos relacionados à batalha, tais como os blindados utilizados na época ou ainda os bunkers alemães, que tanto trabalho deram aos pobres soldados americanos. Ao desembarcarem na praia sob fogo cerrado, tiveram que subir pelas encostas até os bunkers, desviando das metralhadoras e dos arames farpados. Não é de se admirar que tantos tenha morrido no trajeto. Ao observar as encostas das praias, inclusive as falésias em suas extremidades, confesso que passei a admirar mais ainda o realismo do Battlefield 1942, que reproduz com muita fidelidade todo este cenário, inclusive as construções de pedra que podem ser encontradas após a praia, com os mesmos detalhes arquitetônicos descritos no jogo.

Não longe dali, visitamos um outro ponto de desembarque de tropas, que acabou por se tornar um porto improvisado para os aliados. Vê-se no mar, a uns 500 metros da praia, uma plataforma de blocos de concreto improvisada a partir de navios afundados. Foi a partir dali, durante os dias que se seguiram ao Dia D, que as tropas aliadas foram abastecidas com suprimentos, pois diante de uma derrota iminente, os nazistas bateram em retirada, queimando e destruindo tudo que encontravam pais adentro, de forma a tornar impraticável que a operação militar aliada fosse mantida com recursos locais. Entretanto, a guerra acabaria poucos meses depois, uma vez que os exércitos nazistas já se encontravam estagnados pela resistência russa na Europa Oriental.

Ao visitar Omaha Beach, é impossível não refletir a respeito dos detalhes da maior guerra que o mundo já vivenciou, e chegar à conclusão que numa guerra dificilmente há vencedores. Quem ganha na verdade são uns poucos autodenominados homens de negócio que tiram proveito dos conflitos para fortelecer suas posições políticas e econômicas, com certeza em um local muito distante dos campos de batalha. Novamente, volto a escrever que o impacto que a Segunda Guerra teve sobre a Europa salta aos olhos, mesmo 70 anos depois. Com isso, fica a esperança de que as próximas gerações entendam o recado e não cometam os mesmos erros.